domingo, 31 de janeiro de 2016

O coração só conhece o ladrilho

Seus olhos: meu esconderijo ineficiente.

Talvez com um pouco de maestria nossos jogos esquecidos tornem-se finalmente a transcrição das memórias medíocres que clamam por atenção.

Com certa retidão faço das tuas palavras minhas mais sinceras condolências.

O sono que acalma, afugenta a solidão. E ao mesmo tempo torna o plural singular.

Ela não vai ser sua. Ela não vai ceder aos caprichos de um centauro desarmado. Ela não irá sucumbir às garras da princesa dos cabelos rubros. Ela não.

Se você deseja alguma novidade o castelo feito de sonhos talvez tenha algo a dizer.

Se a tua voz conseguir reabrir o portal da excentricidade, talvez o calor dos passos vazios nos ajude a reencontrar a trilha sombria do coração flagelado que não liga para torturas. O coração que só enxerga a sorte do fracasso.

Quando o momento de despedida chegar ao fim, a percepção do que sempre existiu ressurgirá pela calçada íngreme do lado esquerdo. O lado que sempre foi defeituoso, que não aceita desculpas nem respostas.

Em cinco mil anos, nossos ossos usufruirão do prazer de decolar pelas hélices do grande retorno. E nós, no fundo do poço, esperaremos pacientemente a lua reconquistar o que sempre lhe pertenceu.



Escrito no dia 10/06/2015

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O sol atravessou a rua


Quando a chuva torrencial decidir que sofremos o suficiente ela irá passar.

Um dia ensolarado envolto pelo apelo comercial finalmente irá aparecer. O engraçado é que ninguém jamais vai notar essa discrepância, afinal de contas a vida não se importa com seus dizeres mórbidos e sua falta de esperança. Aliás, a vida só tem olhos para o seu próprio umbigo.

Se você conseguisse discernir o bem do necessário nosso diálogo talvez fosse menos tenso. Aquela que te aguarda não quer somente o seu adeus.

O alimento precioso é retirado inteiramente do sofrimento mundano. Quando a lição finalmente for ingerida, o sol tomado pelas sombras do mar irá descarregar todo seu excremento diário.

Nós dois seremos todos. Todos serão ninguém. A vida vingará seu fim trágico. Nosso fim. O fim de ninguém.



Escrito no dia 09/06/2015

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O dia que nunca foi mencionado

Com seus olhos atordoados você me disse que tudo era improvável. No primeiro momento deu certo. Eu senti que era real. Ou ao menos poderia ser.

Você me perdeu nas semanas seguintes. Sempre ocupado demais com trabalhos importantes que apenas mascaravam a sua indisposição de ser.

Obrigada pelas memórias. Especialmente aquelas que eu inventei. Até o real foi irreal. A proximidade que aparentemente existia foi fruto da imaginação que já não corresponde aos estímulos como antes. Ela está morrendo.

Graças ao nosso fracasso o mundo finalmente ira desmoronar. Este será nosso grande final.

A árvore do abismo ancestral nos espera. Não foi nesse planeta. Quem sabe em Marte nos resolvemos.



Escrito no dia 08/06/2015